FOGO, VELAS E MACUMBA NA MADRUGADA: DA DIVISA DOS BAIRROS À FRONTEIRA DOS MUNDOS
Uma rosa no cabelo, a alça do vestido caída e uma vela acessa. O que parecia um pagode de longe era uma curimba de perto. Entre gargalhadas e um arquivo confidencial do meu passado sendo revelado na penumbra, entendi que o underground também tem seu ar religiosamente misterioso
Era um sábado promissor, começo de mês, ferpela no bolso e aquela falsa empolgação de início de mais uma temporada de trinta dias. As contas pagas e comida no armário: é chegada a hora de perambular, porque ninguém é de ferro. Uma festa de bacana rolava num clube no centro, com todo aquele visual elitista que a gente já conhece — portaria, piscina, música ao vivo e rastro de Carolina Herrera pra todo lado. Gente na estica desfilando para eles mesmos, competindo atenções e olhares. Posta um story, toma um gole e confere mensagens. Isso não tem nada a ver comigo.
Paguei um banho, vesti o uniforme noturno — aquele tipo de vestimenta com que você entra e sai de qualquer lugar sem ser notado e ninguém vai te chamar de bacana. A direção era o morro, e dessa vez em uma quebrada um pouco mais distante da minha casa. Um lugar onde não sou muito habituado a frequentar nem muito conhecido, exceto por uns amigos que fizeram o ensino fundamental comigo — isso há trinta anos.
No lugar tem um barzinho diferenciado pela comida e pelo som. Os frequentadores se reúnem e se apertam no pequeno espaço três por três, com uma pequena área externa onde rola uma sinuca. Quem encosta ali nem sempre é praticante do jogo, mas com certeza o frequentador noturno é fã de cerveja gelada, comida de boteco e um repertório musical eclético, sempre guiado pelo humor do proprietário: quanto mais cheio, mais mal-humorado e mais música ruim. Quando cheguei, aquilo parecia um culto de libertação da Igreja Universal. Lotado.
Não demorou muito até que o dono se enfezasse e, cuspindo marimbondo, começasse a fechar as contas na cara dura. Pra minha infelicidade, assisti antes disso ao último ônibus descer majestosamente, como quem dá boa-noite e boa sorte. Enrolei o máximo que pude, tentando reprogramar meu GPS para ancorar em outro local e gastar a frustração — meia-noite certamente não é hora de voltar para casa em um sábado.
Lembrei-me de um bar da mesma estirpe: sem jogo, e sem comida, mas ainda com cerveja gelada e gente pra jogar conversa fora. Um verdadeiro inferninho que fica no pé do morro, próximo a uma ponte. Como é o único estabelecimento na divisa de dois bairros e fica na zona oposta, onde não tem boemia, aquilo nunca fecha. Desci a pé.
Na tentativa de cortar caminho, peguei um beco que cortava por dentro de uma área com muitas casas e pouco movimento, mas sabia que aquele caminho me conduziria bem mais rápido ao destino final. Ao entrar na viela, escutei de longe um som que parecia um pagode. À medida que me aproximava e o som ficava mais nítido, a clareza revelava a natureza do batuque: era com certeza uma curimba, e eu iria passar bem na porta.
A preocupação não era ter medo de alguma coisa, mas a coragem que o álcool te dá. Ao virar a esquina, ainda mais para dentro dos becos, dei de cara com o portão aberto. Como eu já havia imaginado, adentrei destemido após pedir licença para sacar o que estava rolando ali. Botei a cara e de imediato percebi que algo havia me enganado: o lugar não estava cheio, pelo contrário, parecia um rito em família ou de uns poucos conhecidos. Uma meia dúzia de pessoas recebendo uns passes no canto e uma única mulher incorporada no meio da sala, dançando ao som de um único rapaz tocando tambor.
O instinto foi de virar as costas e sair — não dá para passar despercebido quando o assunto é um lugar pequeno com poucas pessoas, mesmo que a penumbra domine metade do ambiente. Mas, no que ensaiei a retirada, o espírito naquela jovem foi mais rápido do que eu:
— Boa noite, moço! Chega pra cá, eu tava te esperando.
O arrepio correu da ponta do cóccix ao alto da cabeça. Cheguei a ensaiar uma boa desculpa para sair, mas aquela rosa no cabelo e aquela alça de vestido ligeiramente caída só de um lado me pegaram. O álcool tem disso, e a magia te fisga pelo ponto fraco.
Segurando uma vela numa mão e uma taça na outra, entre goles, gargalhadas e pontos, um verdadeiro arquivo confidencial foi se abrindo pouco a pouco. De início pareciam coisas genéricas, mas depois as coisas foram ficando cada vez mais impossíveis de acreditar que estivessem saindo da cabeça daquela mulher. Certamente algo do além estava ali encostado, fazendo um download do meu passado em banda larga. Minha preocupação agora era outra: no rumo que aquilo ali estava tomando, não iria demorar para vir um pedido em dinheiro — e, sinceramente, eu não tinha certeza se queria pagar.
E foi só eu pensar que a coisa aconteceu. Disse que, se eu contribuísse com o valor de cinquenta reais para pagar o menino que estava tocando, ela faria uma espécie de trabalho para desamarrar as coisas que estavam travando os meus caminhos. Vi nessa hora uma oportunidade de carimbar meu passaporte: pagar e ir embora. Saquei uma nota do bolso e coloquei aos pés do tambor.
Antes que eu pudesse dizer que não precisava fazer nada e me despedir, ela me colocou sentado numa cadeira e sentou-se no meu colo. Eu podia sentir não só o calor da vela perto da minha cabeça, como também o fogo vaginal transpassando os tecidos e esquentando a minha coxa. Que diabos de reza é essa? Foram uns dez minutos de uma performance macumbesca como eu nunca havia presenciado antes. Canta, passa vela acesa, gargalha e toma um gole. Minha calça ficou com o perfume daquelas entranhas, certeza.
Antes de eu sair, me deu um último aviso: que eu tratasse muito bem a próxima mulher com quem me relacionasse, pois com certeza era sua protegida; que logo os problemas iriam se dissipar; e que eu não medisse oportunidades para falar de tudo o que aconteceu naquele dia. Assim que as coisas melhorassem, era para eu retornar e levar a ela um agrado, como sinal de boa-fé e agradecimento.
O barzinho na boca da ponte ficou para outro dia. Se acontecerá conforme narrado, ainda não faço ideia. O que sei é que, naquele dia, aprendi que a cultura, o underground, também habita vielas e becos — e pode vestir saia e ter um ar religiosamente incompreendido e misterioso.

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