A Vida após às 18h
Debaixo do concreto de um viaduto, a geografia da cidade se transforma quando o sol cai. Uma reflexão sobre a cultura invisível da noite, as contradições da moralidade pública e as vidas rotuladas pela hipocrisia social.
Há uma cidade paralela que desperta todos os dias pontualmente às 18h. Quando o sol começa a se esconder atrás dos morros e a noite desce pesada sobre o vale, algo toma conta do espaço público, subvertendo completamente qualquer geografia do mapa. Dentre os trabalhadores apressados que cruzam o centro retornando para suas casas, há uma parcela silenciosa que compõe o figurino da madrugada: o trabalho noturno, o entretenimento de calçada, o lazer sem glamour e, no centro de tudo, a perdição e o vício.As páginas policiais das redes locais e os portais da região aguardam ansiosamente por esse período, quando o absurdo ganha corpo. Mas, longe da violência apelativa das manchetes, o olhar aqui busca outra direção. Há uma cultura pulsante, crua e sistematicamente ignorada rolando na esquina da sua rua enquanto você fecha as cortinas. O que o discurso oficial mostra em eventos comemorativos e fotos com filtro não chega nem perto do chão batido do cotidiano.
O jogo político local fez um espetáculo moralista em torno do espaço sob o viaduto, que deu lugar a uma praça. O contraste é quase poético: o cinza pesado do concreto sobre a grama verde, o colorido fosco do parquinho infantil e alguns aparelhos de ginástica para a terceira idade. O grande debate nas redes era se aquela proximidade com a estrutura do viaduto e o fluxo do entorno não seriam um perigo iminente para a vida humana. Até agora, nenhum carro despencou dali. Mas, quando os refletores da praça acendem e o comércio fecha as portas, o local também é repleto de cultura, ainda que degradante e sintética.
Pessoas do entretenimento adulto, garotas de programa e corpos moldados pela vulnerabilidade social começam a ocupar os bancos de concreto. Diriam os moralistas de plantão que eles profanam a “praça da família”… Mas quem circula por ali quando o último ônibus passa, senão pessoas que também têm família, nome e passado? Se a noite é momento de devoção, o lugar tem sua própria igreja erguida bem de frente. Basta subir os degraus da calçada para ver: diferente dos templos de oração, ali é possível entregar a alma a Cristo, mas também negociar o corpo, a carne ou a próxima dose.
É um recorte brutal de um estilo de vida que acontece no coração da cidade. Durante o dia, um corredor de passagem; à noite, sob a iluminação que clareia somente as copas das árvores, a realidade se deforma. O estalo do fumo no cachimbo e o cheiro queimado no ar não deixam vestígios em relatório nenhum, mas dizem tudo para quem aprendeu a ler os códigos da rua.
É fascinante notar como o discurso em favor do “cidadão de bem” fala com a propriedade de quem nunca pisou no asfalto molhado da madrugada. A maioria desconhece a realidade que se apressa a condenar; para eles, o "usuário" não passa de uma caricatura de televisão — um zumbi saído de uma série de ficção pronto para atacar a civilização. Não é?
São pessoas como Pedro (nome fictício), que chega pedalando em
sua bicicleta com a cara fechada do dia de trabalho, saca notas
amassadas do bolso, compra quatro pedras na mão do traficante no
canto do viaduto e sai embalado com um sorriso, como uma criança que
acaba de ganhar um presente. Se vai voltar daqui a duas horas ou como
terminará a madrugada, ninguém garante. Durante o dia, Pedro é
porteiro: homem sério, compromissado, não atrasa um minuto e tem
ficha limpa no trampo. À noite, despir-se do uniforme significa
pertencer unicamente ao vazio das suas próprias frustrações.
Ninguém sabe o que sobra dele quando a fumaça sobe.
A sociedade desenvolveu uma cegueira confortável: julga o drama alheio pelo que ouve no grupo de WhatsApp, demonstrando total falta de intimidade com a dor que mora ao lado — e que talvez já habite o quarto ao fundo da sua própria casa. A pergunta fica no ar: você tem certeza de que a sua família está imune a isso? Se a resposta for "sim, porque meu filho não sai à noite", vale lembrar que essa cultura aprendeu rápido com o mercado: a droga não precisa da praça para entrar; ela chega discretamente de moto, embalada num saquinho transparente, via delivery mais ágil que qualquer aplicativo de comida.
Uma parcela da cidade segue nas redes discutindo o que é "o melhor para o município". Mas melhor para quem? O parque público under-viaduto é, afinal, um sucesso estrondoso: atrai crianças de dia e acolhe os esquecidos à noite. Quanto ao risco de um acidente trágico por ali, a estatística não mente: pode vir a ser real, mesmo que nunca tenha acontecido. Resta saber se, quando acontecer, a vítima será alguém que merece uma nota de pesar comovida no jornal local ou alguém do grupo a quem os hipócritas comentarão nos bastidores: "bem feito". Isso não é papo de polícia.
Às 6h da manhã, o gari varre o alumínio e as guimbas do chão, o parquinho é lavado, o comércio abre as portas e a vida, indiferente, segue o seu fluxo.

Comentários
Postar um comentário