CRÔNICAS DO SUBTERRÂNEO: O BANQUETE DOS INVISÍVEIS
O relógio do celular marcava três da manhã quando a lógica decidiu tirar folga. O ar da noite tinha gosto de poeira e maresia, e minhas pernas andavam no automático por uma rua onde até os postes pareciam dobrar o joelho para o cansaço.
Eu buscava apenas um maço de cigarros, mas a física quântica dos bairros esquecidos tem suas próprias regras. Ao virar uma esquina sem saída, me deparei com uma porta de enrolar meio emperrada, iluminada por um néon vermelho que zumbia numa frequência quase hipnótica. Parecia o cenário de um filme B de ficção científica dos anos 80.
Sem pedir licença, deslizei para dentro.
O contraste foi um soco no estômago. Lá fora, o silêncio mórbido da cidade; ali dentro, uma espécie de purgatório festivo. O som que saía de uma caixa de som remendada com fita isolante era um brega-funk desacelerado que parecia reverberar direto no osso estribo. No ar, uma fumaça densa de proveniência duvidosa misturada ao cheiro forte de pinho sol e conhaque barato.
Um sujeito de jaqueta de couro surrada e óculos escuros — sim, três da manhã, em um ambiente sem janelas — me abordou com a intimidade de um parente distante. Ele não falava, ele proferia oráculos em código. Ofereceu-me desde relógios sem ponteiro até a redenção espiritual por vinte reais. "Aqui o tempo não corre, meu patrão, ele rasteja", profetizou ele, antes de desaparecer entre duas caixas de cerveja empilhadas.
Atrás do balcão, uma senhora de cabelos prateados e olhar cirúrgico me serviu uma cachaça com jurubeba numa velocidade quase sobre-humana. Ela não fez perguntas. Naquele ecossistema, perguntar o nome de alguém é quebra de protocolo. Todos ali eram fantasmas de uma cidade que finge que dorme.
Uma figura enigmática dançava sozinha no canto, conversando com o reflexo de uma máquina de caça-níqueis desligada. Ninguém achava estranho. O esquisito ali seria a normalidade.
Tomei o último gole, deixei uma nota amassada no balcão e recuei devagar, como quem sai de uma jaula sem acordar o predador. Ao passar pela porta de enrolar, o vento frio da rua me atingiu como um choque elétrico.
A porta se fechou atrás de mim com um estrondo seco. Olhei para trás e o néon já estava apagado. O prédio parecia abandonado há décadas.
Caminhando de volta para casa sob a luz cinzenta do amanhecer, com a garganta queimando e o juízo embaralhado, olhei para as minhas próprias mãos para ter certeza de que ainda pertencia a este plano. A cidade alta estava prestes a acordar para ir trabalhar, sem nem suspeitar do banquete que os invisíveis tinham acabado de celebrar logo ali embaixo.

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