Stalkers de Limbo: O Impacto Oculto no Alcance Digital e Estratégias para Pequenos Negócios
Introdução
Não é segredo — tampouco uma teoria conspiratória — que as redes sociais utilizam algoritmos sofisticados para ajustar e personalizar a experiência de seus usuários. Esses sistemas são projetados para mapear e interpretar gostos, preferências e comportamentos individuais, criando um ambiente altamente adaptado, mas também controlado. Nesse sentido, podemos afirmar que princípios de behaviorismo clássico são amplamente aplicados na construção dessas experiências digitais.
No behaviorismo, estímulos externos são utilizados para moldar respostas comportamentais específicas. No contexto das redes sociais, essas plataformas agem como os "condutores" desse processo, oferecendo reforços positivos (notificações, curtidas, comentários) e negativos (filtros de conteúdo, exclusão de informações indesejadas) para modelar e sustentar comportamentos desejáveis, como maior tempo de permanência na plataforma e maior engajamento com anúncios.
No entanto, o foco deste estudo não está no que as redes sociais tentam "fazer" com o usuário — uma discussão amplamente abordada —, mas sim no comportamento que nasce fora do controle direto das plataformas: a maneira como os próprios usuários internalizam, adaptam e utilizam essas ferramentas para fins ocultos ou prejudiciais, especialmente em contextos de vigilância digital e sabotagem interpessoal ou comercial.
O conteúdo desse texto não se aplica para casos onde o uso das redes é pessoal, mesmo contendo uma série de informações que todavia serão úteis a qualquer um. Esse estudo é um abrir de olhos para donos de pequenos negócios que tentam a sorte todos os dias produzindo conteúdo para chamar atenção para aquilo que vendem e produzem e como o comportamento dito “inocente” de sua audiência pode arrastar seu negócio para um limbo paralisante.
A prática não é tão positivista quanto a teoria
Influencers e pessoas que vivem de redes sociais desconfiam de algo que faz total sentido. É notório que muitos desses criadores produzem conteúdos reforçando a importância das interações para que suas publicações alcancem os resultados desejados. A narrativa predominante aponta para a necessidade de produzir conteúdo de valor como chave para o engajamento orgânico. De certo modo, essas pessoas não estão erradas, mas surge uma contradição evidente: conteúdos de baixa qualidade e gravações amadoras frequentemente viralizam, causando desconforto e perplexidade entre os que se consideram especialistas no assunto.
Embora se diga que "viralizar não é uma regra", a realidade das redes sociais é muito mais complexa. Na verdade, quase nada é uma regra clara, exceto a lógica behaviorista que orienta as análises dos algoritmos. Esses sistemas não apenas monitoram suas ações, mas também consideram as interações e o comportamento das pessoas conectadas a você. Esse é um aspecto que a maioria ignora ou sequer considera relevante.
Já começou a seguir alguém e notou que seu engajamento caiu logo depois? Ou percebeu que, após uma nova pessoa seguir seu perfil, o alcance das suas publicações declinou?
No TikTok, por exemplo, é comum encontrar vídeos explicativos sobre a importância de bloquear pessoas conhecidas, não sincronizar contatos e ocultar a localização para melhorar o alcance das publicações. Embora essas práticas tenham mérito em evitar limitações no alcance, o problema é mais profundo do que aparenta.
Anos atrás, houve uma epidemia de compras de seguidores e engajamento fake. Para alguns negócios, isso fazia sentido se combinado com estratégias mais amplas — ignorando, aqui, o debate ético sobre a prática. No entanto, muitos experimentaram um declínio acentuado no alcance logo após contratar esses serviços. Por quê?
Não é apenas porque as redes sociais proíbem explicitamente tais práticas. A questão está na resposta behaviorista natural dos algoritmos. Uma legião de perfis bots faz com que as redes associem seu conteúdo a outros bots, reduzindo drasticamente sua visibilidade para perfis reais e, consequentemente, prejudicando o engajamento genuíno.
Um foco além das plataformas: o usuário como agente de controle
Enquanto muitos estudos focam na influência das redes sociais sobre o indivíduo, este texto propõe um deslocamento do foco: o comportamento do usuário como agente ativo no uso da tecnologia para fins ocultos ou prejudiciais. O comportamento emergente de "querer saber, mesmo aquilo que não deveria saber" é um exemplo claro de como os usuários extrapolam os limites das interações normais para explorar as possibilidades do ambiente digital.
Na vida prática, alguém que se afasta de outra pessoa não teria, naturalmente, acesso às informações sobre a vida do outro. Porém, no ambiente digital, isso muda. O usuário pode criar perfis falsos ou até redes de perfis ocultos para continuar observando, monitorando e, potencialmente, interferindo. Essa prática vai além da mera curiosidade, entrando em um território ético e psicológico perturbador.
Um pequeno negócio que dependa exclusivamente das redes sociais mas que atraia inúmeras atenções indesejadas, estará em sérios apuros se não se atentar. Um perfil pequeno que esteja conectado a uma audiência com esse comportamento stalker, terá seriamente seu alcance comprometido pois as redes assimilarão que o público-alvo daquele negócio são pessoas com o mesmo comportamento.
Uma categoria de comportamento desconhecida: o stalker de limbo
Assim sendo os comportamentos mencionados anteriormente pode ser categorizado como uma nova forma de stalker digital, distinta das formas mais óbvias de assédio, fazendo nascer uma nova espécie de sabotador .
Este stalker:
Opera no "limbo" do comportamento online: Não se manifesta de forma direta, mas afeta o alvo por meio de interações passivas, como visualizações, monitoramento e manipulação de alcance.
Prejudica ativamente sem contato direto: Seja isolando o alvo em um "limbo de fakes" ou influenciando algoritmos contra o engajamento genuíno.
Possui impacto comercial significativo: Para pequenos negócios, por exemplo, a presença de uma "legião" de perfis falsos conectados ao perfil do negócio pode reduzir drasticamente seu alcance orgânico, isolando-o de clientes reais e jogando-o em um ciclo de invisibilidade.
Alguns Dados
Durante 2024, oito perfis foram analisados com privilégios de administrador da conta. Em nenhum deles foi aplicado recurso de promover publicações, e todo o alcance foi orgânico. Apenas dois deles, um no Instagram e outro no TikTok, seguiram os recursos comuns, como sincronização de contatos e aproximação de pessoas conhecidas. Os demais foram administrados de maneira "dark", ou seja, sem revelar o verdadeiro criador, e divididos em dois grupos: um com conteúdo diverso e outro com conteúdo profissional. A escolha por fazer uma conta dark tinha como objetivo evitar que pessoas conhecidas do criador o identificassem.
Todos os perfis eram de contas pequenas, não ultrapassando dez mil seguidores ao final do estudo.
Nos dois perfis identificáveis, foi observado o que já era esperável: alcance baixo com um péssimo nível de engajamento. Já nos perfis administrados de forma "dark", o engajamento orgânico, embora não tenha sido viral nos casos de conteúdo profissional, mostrou-se significativamente mais satisfatório em comparação aos perfis que incluíam pessoas conhecidas e contas falsas como seguidores.
As contas que obtiveram engajamento viral acima da média em suas publicações eram de conteúdos genéricos. Isso sugere que o viral (acima de um milhão de visualizações) está mais relacionado à identificação do público com o conteúdo do que ao número de seguidores da conta que o produziu. Portanto, produzir conteúdo de grande alcance parece estar menos ligado à quantidade de seguidores do que se imagina.
No caso das contas identificáveis, que eram as que realmente importavam, alguns ajustes foram capazes de restaurar parte da saúde do engajamento: o bloqueio de contas seguidoras que visualizavam tudo, mas não interagiam, a remoção de contas com características falsas e contas com um número excessivamente maior de seguidos do que seguidores.
A relação entre alcance e número de seguidores se mostrou completamente desproporcional no TikTok, que apresentava um alcance muito maior do que o número de seguidores. Uma das contas dark, com apenas três mil seguidores, conseguiu, com apenas uma publicação semanal, alcançar de 300 mil a um milhão de visualizações, sendo que uma dessas publicações somou mais de 185 mil curtidas. Já no Instagram, mesmo com bom alcance, as curtidas mantiveram-se dentro de uma média de 2% a 18% em relação ao número total de seguidores.
Análise
Os dados obtidos no estudo não fornecem uma resposta definitiva sobre a "melhor" plataforma para alcance, pois o objetivo aqui é outro: explorar como a vigilância de pessoas indesejadas pode impactar o desempenho.
Nas contas identificáveis e com público sincronizado, o alcance mostrou-se consistentemente baixo. A rede notificava os contatos, o conteúdo era ignorado, e o perfil acabava recomendado a outras pessoas com o mesmo comportamento inativo.
Contas não alcançáveis por atenção indesejada, ou seja, livres da presença de stalkers de limbo, apresentaram um desempenho significativamente melhor. Isso reforça que até mesmo interações negativas, como as de haters, podem ser mais saudáveis para o engajamento do que a presença de stalkers silenciosos.
Em termos de impacto, basta um pequeno número de contas mal-intencionadas para prejudicar uma presença online. Por exemplo, uma conta com menos de mil seguidores pode ser severamente afetada se apenas 30 contas atuarem como audiência stalker. Em certos contextos, como negócios locais ou nichos altamente competitivos, é relativamente fácil atingir esse número de seguidores indesejados logo no início. Concorrentes desleais, amigos de concorrentes e até desafetos pessoais podem ser suficientes para jogar uma conta em um ciclo de invisibilidade digital.
O mesmo se aplica a contas maiores, que podem apresentar crescimento estagnado por períodos prolongados. Nesse caso, há fortes indícios de que algo no comportamento da audiência está prejudicando o desempenho da conta.
Há Caminhos e Há Desvios
O leitor pode se sentir desanimado ao perceber o impacto negativo que esses fatores podem ter tido sobre seu negócio até agora. É provável que muitos sugiram que o controle sobre a criação de perfis falsos deveria ser mais rigoroso. No entanto, não podemos esquecer que as redes sociais funcionam com base em estímulos e respostas.
Essa sombra pode ser causada até mesmo por uma audiência formada exclusivamente por pessoas reais, mas que não interagem. Assim, a regulação da criação de perfis falsos, embora possa ajudar, não resolveria completamente o problema. Trata-se de uma questão mais complexa e profunda.
O comportamento cultural de algumas redes sociais também influencia esses resultados. Redes como Facebook e Instagram, que incentivam a ostentação e a comparação social, criam um ambiente propício para a vigilância silenciosa. No Facebook, a proximidade entre contatos facilita a curiosidade, enquanto o Instagram, com sua ênfase em imagens, fomenta a exibição e o voyeurismo.
Para quem depende dessas redes para trabalhar, é crucial ficar atento. Muitas das pessoas que seguem seu perfil podem não ser o que parecem. Estratégias como bloqueio de contas inativas, revisão constante de seguidores e o foco em atrair públicos genuinamente engajados são fundamentais para evitar o limbo digital.
Entender em que canais é mais importante dar ênfase ao seu negócio é muito mais importante do que seguir uma tendência imitativa de sair criando um perfil e postando coisas. Essa é uma caminhada de paciência com foco em coisas que sejam realmente de valor para o seu negócio até que seu conteúdo encontre essas pessoas do que simplesmente produzir conteúdo para chamar atenção.
Considerações finais
Embora os desafios apresentados possam parecer desanimadores, o reconhecimento do problema já é o primeiro passo para superá-lo. Com estratégias práticas e uma compreensão mais profunda do comportamento online, é possível proteger e até revitalizar a presença digital do seu negócio. Afinal, o controle do engajamento não está apenas nas mãos das plataformas, mas também nas escolhas estratégicas de cada criador ou empresário.
ALGUMAS REFERÊNCIAS:
LIVROS
PARISER, Eli. The Filter Bubble: What the Internet Is Hiding from You. New York: Penguin Press, 2011.
ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. New York: PublicAffairs, 2019.
SKINNER, B. F. Verbal Behavior. Cambridge: B. F. Skinner Foundation, 1957.
EYAL, Nir. Hooked: How to Build Habit-Forming Products. New York: Portfolio, 2014.
TUTEN, Tracy L.; SOLOMON, Michael R. Social Media Marketing. 4th ed. Thousand Oaks: SAGE Publications, 2021.
ARTIGOS E ESTUDOS
FERRARA, Emilio et al. The Rise of Social Bots. Communications of the ACM, New York, v. 59, n. 7, p. 96-104, 2016. DOI: 10.1145/2818717.
TOKUNAGA, Robert S. Social Networking Site or Social Surveillance Site? Understanding the Use of Interpersonal Electronic Surveillance in Romantic Relationships. Computers in Human Behavior, Amsterdam, v. 27, n. 2, p. 705-713, 2011. DOI: 10.1016/j.chb.2010.08.014.
TUFEKCI, Zeynep. Engineering the Public: Big Data, Surveillance and Computational Politics. First Monday, Chicago, v. 19, n. 7, 2014. DOI: 10.5210/fm.v19i7.4901.
RELATÓRIOS
HOOTSUITE. Digital Trends Report 2024. Disponível em: https://www.hootsuite.com/reports. Acesso em: 1 dez. 2024.
OUTROS
REYNS, B. W.; FISHER, B. S.; RANDA, R. Digital Stalking: Navigating the New Crime Frontier. Cham: Springer, 2018. DOI: 10.1007/978-3-319-98237-7.
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