TECENDO NOVOS CAMINHOS: RECONHECENDO O FIM PARA ABRAÇAR NOVAS JORNADAS PROFISSIONAIS
Nas relações pessoais em sua maioria tudo é muito mais claro quando se trata de saber a hora de se retirar. Encerrar uma relação se mostra necessário quando não há mais conexões recíprocas e harmônicas, desdobrando um claro espectro de situações que são visíveis antes mesmo do fim, desentendimentos frequentes, relações de abuso, incompatibilidades de ideias ou mesmo uma espécie de cenário mórbido que se estabelece entre as partes causando um afastamento mútuo, e infinitas são as situações claras que anunciam o fim e hora de uma outra caminhada na companhia de outras pessoas ou mesmo sozinho.
Na relação do sujeito com o trabalho essas questões não são bem claras e sobretudo quando este trabalha por conta própria, uma série de ilusões e rédeas que vão causando uma espécie de estado permissivo de abuso da coisa – trabalho – para consigo. Normalmente, o fruto financeiro do trabalho é responsável por uma série de certezas que causam alguma estabilidade emocional na vida cotidiana, uma espécie de bem-estar, um senso de dignidade, assim deveria ser.
É sabido que quando mergulhados em um trabalho que não é mais para nós seja ele autônomo ou não os sintomas serão visíveis não somente no espectro financeiro de nossas vidas mas, na nossa saúde física e também mental e quase sempre essas condições invalidam a vida laborativa da pessoa causando assim aquilo que chamamos de aposentadoria.
O fato que trata esta reflexão se assenta não em pontuar as situações fins que impossibilitam o trabalhador de exercer uma vida laboral, mas tentar responder quais os fatores anunciantes do fim da relação indivíduo trabalho, sendo possível identificá-los, assim como nas relações pessoais? Quando é hora de desenvolver um novo trabalho e quais as implicações dessa decisão? É nossa missão tentar até o fim uma mesma profissão?
De início é bom que se desapegue da visão onde a perícia é fator sinônimo de desenvolvermos um trabalho que nos traga o mínimo de dignidade, o bom exemplo disso no mundo atual é a grande quantidade de especialistas em áreas de conhecimento diversas tendo como trabalho ser motorista de aplicativo, sendo este ofício sua única fonte de renda e sustento. Estamos vivendo em um mundo onde estudar não é mais garantia de exercer de maneira sadia aquilo que escolhemos nos dedicar, ter uma profissão reconhecida e ser perito nela é mais uma questão de possuir uma titulação para mera identificação pessoal do que garantia de trabalhar e viver daquilo.
É importante salientar que desde o princípio vivemos emaranhados numa rede cultural que sustenta sempre seus conflitos de interesse e que, o grupo dominante exerce uma espécie de marketing cultural verborrágico que só tem como objetivo colonizar mentalmente o trabalhador. Nesse discurso se encontra sempre impregnado a exaltação da não desistência, do não fazer corpo mole e outras afirmações como do tipo: se não deu certo é porque não fez direito.
O trabalhador por sua vez é alguém que passa a manter um pensamento em sua maioria, dócil, sempre se vendo como alguém que se encontra em absoluto pavor de perder aquilo que na grande parte das vezes, é sua fonte de sustento, sem ao menos se dar conta de que a submissão aquilo que não causa nele o bem pode ser sua própria fonte de miséria.
Um trabalho não deveria ser para nós simplesmente quando decidimos que ele já não é mais, a decisão disso já aponta que não estamos mais dispostos a empregar nossa boa energia para o bom desenvolvimento dele, mas não é assim que acontece pois, a ausência do trabalho para aquele que só tem o trabalho como fonte de renda significa ausência de dinheiro. Na realidade mesmo quando decidimos não empregar mais a nossa energia vital como fazíamos antes, continuamos.
Os fatores anunciadores de que é hora de começar uma nova jornada profissional devem ser entendidos a partir do momento que ultrapassamos uma linha do saudável para nós, se na vida pessoal viramos as costas facilmente para aquilo que não nos alimenta mais, assim também deverá ser no laboro. Um trabalho não é mais para nós quando há um desequilíbrio entre as ilusões de melhora, bem-estar, reconhecimento, dignidade e os frutos que realmente colhemos desse trabalho. Um trabalho não é mais para nós quando já depositamos nele todas as nossas alternativas de melhora e nada deu certo, é hora de virar a página e assumir as consequências de tomar uma nova direção antes que esse mesmo trabalho tome de nós coisas irrecuperáveis como tempo e saúde.
Há uma série de enganos suspensos no abstrato digital, onde por exemplo é compartilhado por aí afirmações, que se você falhou em um determinado projeto você tem todas as ferramentas necessárias para fazer a segunda tentativa ser um sucesso. Esteja preparado para a possibilidade de tentar mais uma dúzia de vezes e falhar em todas elas mesmo fazendo diferente, cada tentativa terá suas próprias variantes externas de sucesso ou fracasso pois, se dá em tempos e ambientes diferentes e o conhecimento acumulado do “fracasso” anterior, diz respeito somente aquele caminho caso ele se repita futuramente e não agora.
Não há uma matemática precisa em relação aquilo que vai ou não dar certo quando o assunto é vender nossa mão de obra ou mesmo empreender, são tentativas, o que temos que ter é o máximo de cuidado para não nos auto enredar em uma atividade que não desejamos ficar o resto de nossas vidas, não colocar demasiada energia vital em coisas que não acreditamos e sempre fazer uma ressalva de como nos entregamos aquelas atividades profissionais que gostamos de exercer.
A paixão assim como nas relações pessoais, pode se manifestar completamente tóxica, auto depreciativa e irracional com o trabalho que escolhemos. Por paixão ao que faz, tanto você pode acabar se sujeitando a situações que não deseja se submeter, como pode ter uma expectativa fora da realidade do que aquele trabalho pode te trazer.
A vida é demasiadamente curta e ela não é só trabalho, por mais que tenhamos e necessitamos trabalhar. Há outras realidades que necessitamos viver para além de trabalho e este não pode ser o fator impedidor de vivermos outras coisas, e se nosso trabalho, não nos proporciona a condição de vermos acontecer outras coisas importantes, como o crescimento de um filho, uma vida social, uma noite tranquila e bem dormida, uma alimentação digna dentre outras coisas, é a manifestação mais genuína que aquela jornada profissional chegou ao fim.
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