TATUAGEM E MEMÓRIA: CONEXÕES

 

Há tempos não parava para escrever nada acerca de tatuagem, mesmo todos os dias lidando com o fato de não conseguir fugir desse universo. Por todos os cantos da minha vida lá está ela, presente, sem a menor possibilidade de vislumbrar um cenário que não contenha muita arte e muita tinta. Há tempos que venho fazendo pequenas inclinações, tentando demonstrar a profunda correlação entre tatuagem e memória, de como as artes que escolhemos interferem diretamente naquilo que escolhemos eternizar e como consequência, não esquecer.

A arte da tatuagem é uma manifestação cultural ancestral, transcendendo fronteiras geográficas e temporais. Desde os tempos mais remotos, aquilo que decidimos estampar na pele tem desempenhado papéis diversos, desde marcações de status social e afiliação tribal até expressões individuais de identidade e estilo. No entanto, mesmo se entendermos essas manifestações como simples adornos corporais, as tatuagens possuem uma relação íntima e profundamente complexa com a memória humana, não há como fugir disso.

A memória, esse mecanismo fantástico que armazena nossas experiências, emoções e identidades, está ligada de maneira intrínseca à prática da tatuagem. Quando escolhemos marcar nosso corpo com um desenho, frase ou símbolo, estamos, de certa forma, eternizando uma parte de nossa história pessoal na pele, eternizando situações as quais não desejamos, de maneira alguma que seja esquecido. Cada tatuagem conta uma história, seja ela um registro de uma jornada pessoal, um tributo a um ente querido, uma expressão artística de nossa visão de mundo ou ainda chaves capazes de abrir ou fechar portas da visão do outro para conosco, de como desejamos sermos vistos.

Tatuagem é um pequeno fragmento de memória ou mesmo uma chave mnemônica, uma forma de lembrança materializada em pigmentos e traços. Quando olhamos para nossa pele tatuada, somos instantaneamente transportados para os momentos e significados que aquela marca representa, ainda que não tenhamos pensado que tipo de memória aquela arte representaria no momento de tatuar. É como se cada tinta gravada fosse um arquivo que liga a nossa biblioteca interna, esperando para ser desencadeado por um olhar, um toque ou uma lembrança.


A relação entre tatuagem e memória pode estar profundamente enraizada na inconsciência humana. Se olharmos por um prisma da psicologia podemos chegar a um entendimento de que, as tatuagens desempenham um papel importante na formação da identidade e na integração de experiências passadas. Ao tatuar nossa pele, estamos não apenas modificando nossa aparência física, mas também alterando e redefinindo nossa narrativa pessoal, o ser antes como veio ao mundo agora carrega expressões escolhidas por ele mesmo. Cada marca na pele se torna um elo tangível com nosso passado, um lembrete constante de quem fomos, quem somos e quem desejamos nos tornar.

Para além, as tatuagens têm o poder de evocar memórias coletivas e culturais. Em muitas sociedades, as tatuagens têm sido utilizadas como símbolos de pertencimento e identidade cultural. Por exemplo, entre os povos indígenas, as tatuagens podem representar linhagens familiares, conquistas ou rituais de passagem. Da mesma forma, em contextos contemporâneos é notório o consumo de determinados estilos de tatuagem na busca de uma possível aprovação social se olharmos como se multiplicam certas tendências quando estas ganham visibilidade nas redes sociais por exemplo. As tatuagens podem ser uma forma de expressão política, social ou religiosa, carregando consigo as memórias e lutas de todo um grupo de pessoas, menos algo neutro por mais que nossa intenção explícita tenha sido a neutralidade na hora da escolha, neutralidade e tatuagem são coisas que não caminham juntas.

Outro aspecto fascinante da relação entre tatuagem e memória é a experiência do procedimento e si. O processo de ser tatuado é muitas vezes uma experiência intensamente memorável, cercado de etapas que mais se assemelham com pequenas ritualísticas. Desde a escolha do desenho até o zumbido das máquinas projetando em nossa pele a agulha, cada etapa do processo é carregada de significados e emoções. As sensações físicas e emocionais associadas à tatuagem são frequentemente gravadas na memória, tornando-se parte do repertório de histórias a contar de cada indivíduo.

Tatuagens podem servir como âncoras emocionais, ajudando-nos a lembrar e processar eventos significativos em nossas vidas. Muitas pessoas optam por tatuar-se como uma forma de homenagear, marcar momentos de superação pessoal, celebrar conquistas importantes ou mesmo potencializar estados emocionais. Essas tatuagens não apenas nos lembram desses eventos, mas também nos fornecem conforto e força ao longo de nossa jornada. Assim como as tatuagens podem evocar memórias, elas também podem influenciar a forma como criamos e processamos novas memórias. Se aquilo que escolhemos imprimir em nossa pele pode alterar a maneira como os outros interagem conosco logo também aquilo que escolhemos carregar tem a capacidade de alterar nossas experiências e memórias futuras.

Uma outra reflexão importante é que as tatuagens podem atuar como marcadores de identidade ao longo do tempo, fornecendo uma linha do tempo visual de nossas vidas e experiências. À medida que envelhecemos, nossas tatuagens se tornam testemunhas silenciosas de nossas jornadas, dos caminhos que percorremos, registrando mudanças físicas, emocionais e até mesmo espirituais ao longo do tempo. Contudo, a relação entre tatuagem e memória transborda uma natureza rica em complexidade e totalmente multifacetada. As tatuagens não são apenas adornos corporais, mas também artefatos de memória, chaves mnemônicas, um amuleto, encapsulando experiências, emoções e identidades individuais e coletivas. Ao tatuar nosso corpo, estamos tornando visível um pedaço de nossa história na pele, criando uma obra de arte viva que continuará a contar nossa história muito depois de termos partido.

Referências:


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