COLONIZAÇÃO MENTAL: A PERDA DA LIBERDADE IMAGINATIVA

 

Imagine uma casa, pense detalhadamente como você pensa essa casa, você imagina sua própria casa do jeito que ela é ou imagina uma casa padrão dos filmes de cinema como essas que estão a venda como casa perfeita nos anúncios imobiliários? Agora, imagine uma pessoa que você julga bela, você imaginou alguém que conhece da maneira que a pessoa é ou imaginou uma beleza midiática, digna dos filmes e telenovelas? Isso não se trata de achismos ou ficção científica, se você respondeu sim a qualquer uma das alternativas, muito cuidado, sua mente pode estar colonizada.


A MENTE IMAGINATIVA

Tendemos a imaginar padrões com que temos algum contato, isso não é nenhum problema se não estamos debruçados em cima do conceito de imaginar x criatividade. A imaginação é diferente de criatividade mas pode interferir diretamente em um processo criativo. A mente imaginativa, possui a habilidade de criar composições e situações mentais diversas, quando associada ao processo criativo esta tem que ir além das possibilidades que comumente imaginamos. Nessa jornada não pode haver barreiras limitantes, mesmo a mente imaginativa não sendo a única responsável pela criatividade. Imaginar é o ato de criar imagens mentais ou cenas imaginárias, geralmente relacionadas a fantasias ou sonhos. E muitas vezes usado como uma forma de escapismo. É também usado como uma ferramenta para a criatividade, pois permite que as pessoas explorem possibilidades e perspectivas diferentes.

Uma mente imaginativa não necessariamente é uma mente criativa, pois as influências que possibilitamos interferir em nosso pensamento imaginativo fantasioso pode desencadear em nós uma série de sensações negativas. A exemplo: Há pessoas que se sentem mal por imaginar a possibilidade de existir vida extra terrestre, de imaginar que possa haver por aí seres verdes pilotando discos voadores; Outras podem se sentir traídas por simplesmente imaginar a possibilidade de traição da pessoa amada, mesmo que não haja a menor possibilidade disso acontecer, geralmente essas pessoas quando sonham com cobras logo acreditam em um recado sobrenatural que na verdade, não passa da mente imaginativa tentando nos influenciar. Todavia a imaginação influenciada não necessariamente é uma condição que se desdobrará em um processo criativo.


A MENTE CRIATIVA

De maneira contrária a mente criativa atenta-se no foco da ideia imaginada. Precisamos de imaginação para visualizar a ideia mas, também precisamos de foco para que esse processo imaginário se desdobre em criatividade. A mente criativa é aquela que é capaz de formular novas ideias e soluções para problemas. Envolve a capacidade de pensar de forma autêntica, resolver problemas e ver as coisas de uma perspectiva diferente. Além disso, envolve também a habilidade de conectar ideias e pensar de maneira não esperada. Criatividade requer um compromisso com a ideia, ao contrário da imaginação onde podemos simplesmente nos deixar levar de cena em cena, como um macaco que salta de galho em galho. Todos os dias imaginamos coisas fantásticas que deixamos passar, talvez por essas mesmas coisas não serem para nós, por não acreditarmos na ideia, ou simplesmente por somente conseguir apalpar parte da ideia nos causando um bloqueio imaginativo, impedido que tudo se desdobre em criatividade.


CENAS ONÍRICAS COMO LIBERDADE IMAGINATIVA

Pense em cenas oníricas, não comandamos nossos sonhos, eles se apresentam para nós da maneira com que o nosso cérebro bem entende, em um momento onde a área responsável pela consciência e racionalidade está em repouso. Quando sonhamos com nossa casa por exemplo, a certeza que temos que é nossa casa é o sentimento de pertencimento que temos durante o sonho, se conseguirmos reparar, a estrutura do que acreditamos ser nossa casa é complemente modificada nas cenas oníricas, as vezes ela é mais ampla, as vezes menor, as cores são diferentes, ela pode ter uma aparência nova e bem cuidada, como pode ser uma casa caindo aos pedaços, ela pode ser até uma casa totalmente diferente do que temos em um lugar que nunca vimos mas, se sonhamos com nossa casa, quando acordamos dizemos: “Sonhei com a minha casa, era diferente, era um outro lugar”. O que faz termos certeza de ser nossa é o sentimento de pertencimento causado pela cena onírica e não o como a imaginamos. Até nós mesmos somos diferentes em um sonho.


A COLONIZAÇÃO MENTAL

Colonização mental é um processo no qual as pessoas são forçadas a se adaptar às normas, crenças, os gostos, aos padrões e valores de outro grupo, geralmente de uma cultura dominante. Isso pode incluir crenças e comportamentos religiosos, linguísticos, políticos e sociais, e pode resultar em um processo de assimilação, em que as pessoas se tornam menos conscientes de sua própria cultura e história.

O conceito de colonização mental não é algo novo, ele é muito difundido historicamente em política social por exemplo. O processo escravista no Brasil teve muito de colonização mental da parte daqueles que escravizaram os africanos. O não direito a frequentar escolas, o desumano gesto de tratar escravos como bichos, o tratamento a chibatadas, o terror que implanta uma ideia de inferioridade do povo negro são artifícios que tem como função não somente ferir a honra e dignidade do povo negro mas, de fragilizá-los para implantar nessas pessoas a ideia de que seus senhores são pessoas em um estágio acima. O mesmo fato aconteceu ao redor de todo mundo onde houveram movimentos colonizatórios, a exemplo em Moçambique os nativos precisavam aceitar a fé cristã para poder cursar uma pequena fração do ensino escolar. A colonização mental não é uma ficção científica ela é real até os dias atuais.

A propaganda, as telenovelas, as redes sociais, entre outros, insistem em dizer para nós o que é bom e belo, fazendo isso de maneira sutil nos embutindo um imaginário que não estamos nem pensando de divagar sobre ele. Não é possível fugir totalmente dessas influências, aparelhos celulares, rádios, televisores, estão todos aí e seria um retrocesso se pensássemos o mundo sem esses avanços porque existem pessoas querendo nos embutir uma ideia do que é bom mas, de igual forma é uma baita ingenuidade pensar que essas coisas não acontecem o tempo todo.

A internet hoje te fragiliza não com chibatadas, mas te fazendo acreditar que sinônimo de felicidade é possuir um corpo perfeito e retocado digitalmente que não há a menor condição de ser alcançado e mesmo se alcançado um grau de satisfação, no mesmo tempo uma outra pobreza sobre aquilo que você não tem e não é, será lançada na sua cara. A colonização mental te fragiliza nos nossos dias quando homens começam comprar uma ideia padrão do que é ser bem sucedido, e para isso é necessário um carro, uma casa e um emprego que ganhem no mínimo cinco salários por mês e que se você não alcança isso a culpa é tão somente sua que não se esforçou o suficiente e, que de tão fragilizado nem se permite pensar que bem sucedido é um conceito extremamente subjetivo. E assim segue um carretel inteiro de coisas que podemos enumerar.


RESUMINDO

A imaginação tem por necessidade no homem livre ser livre assim como a maioria das cenas oníricas que não as comandamos. Quando utiliza-se o termo “imagine”, não se permita menos que discorrer aquilo que sua imaginação é capaz de percorrer e não a ideia embutida na cabeça de como disseram para ti. No mundo imaginário nada tem que ser como é, permita-se observar a própria maneira. Enquanto tatuador assisti muito de colonização mental acontecendo todos os dias com meus clientes, influenciados por redes sociais passaram a desejar para si aquilo que observavam na tela de seus celulares repetidamente e que julgavam ser como as pessoas da foto sem nem ao menos saber quem eram essas pessoas. Há imaginação nisso? Há criatividade? Há arte?

É verdade que ideias criativas sempre esbarram em outras ideias, pouquíssimas são aquelas que brotam do nada mas, e a autenticidade? Permitir-se colonizar é perder a própria condição de olhar o mundo a sua maneira, é perder a identidade própria é olhar para si com os olhos e a imaginação de quem os coloniza.

Imagine!

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